Após conquistar a preferência dos turistas religiosos em 2007, o Santuário de Nossa Senhora da Guia, em Lucena, a 42 Km de João Pessoa, agora sofrerá maior divulgação por parte dos órgãos de turismo do Litoral Norte. Foi o que revelou uma pesquisa realizada pela Secretaria de Turismo de Lucena, envolvendo os itens História, Religião, Folclore, Ecologia e Artesanato. A restauração total do templo, cujo design atendeu ao traçado da planta original elaborada no final do Século XVI, contribuiu para a escolha.
De acordo com o arquiteto e meio-ambientalista Raglan Rodrigues Gondim, integrante dos quadros do Iphaep, "a igreja de Nossa Senhora da Guia é uma edificação marcante do barroco tardio ou tropical, edificada em alvenaria de pedra calcária e arenito, que tem, como construtores, os frades da Ordem dos Carmelitas".
Fundada pelos Carmelitas - religiosos que chegaram a Paraíba em 1591 -, a igreja de Nossa Senhora da Guia foi construída na margem esquerda do Rio Paraíba, em Lucena. Nos anos subseqüentes, passou por várias fases de reconstrução.
Na fachada, a igreja apresenta desenhos diversos - um deles é o quadro dos "anjos deformados", seguido de uma profusão de esculturas de frutos tropicais, coroas, cetros e armas do império luso-espanhol, ao qual o Brasil estava atrelado, na época de fundação do templo.
Os arquitetos Fábio Cavalcanti, Carmen Muraro e Jorge Eduardo Tinoco, com bases em estudos realizados na área do templo, em abril de 2005, afirmaram que, "originalmente o prédio que hoje abriga a igreja tinha as fundações de um fortim militar, com o importante papel de vigiar o Litoral Norte do Estado".
Concluída na segunda metade do Século XVIII, a igreja foi reconhecida como "uma obra em pedra calcárea, com efeito plástico que caracteriza o estilo barroco tropical (uma das únicas do gênero no Brasil)". A ornamentação do interior, também em calcáreo, inspirou-se no estilo rococó.
Antônio Lourenço da Costa, 62 anos, há 10 é zelador da igreja de Nossa Senhora da Guia. E sabe de cor - e a seu modo - toda a história que envolve o templo, inclusive o significado do telhado triplo de telhas portuguesas. Com a simplicidade típica do caboclo litorâneo, ele sempre está lá, de chaveiro na mão, para atender aos visitantes.
Lourenço diz que a história por ele reproduzida lhe foi passada por frades carmelitas italianos, que ora administram o santuário. Segundo ele, em 1591 o mar batia no pé do promontório onde hoje está erguida a igreja, daí porque, na sua lateral esquerda, existe uma seteira. Era ali que os defensores do fortim colocavam as canhonetas - um canhão de pequeno porte, mas de grande e certeiro alcance, quando lançava suas balas de ferro contra os navios inimigos.
As pedras calcáreas utilizadas na construção da igreja, já vinham talhadas de Portugal. Eram transportadas por navios. Apesar dos arcos e das estruturas pesadas que sustentam o teto, não foi usado ferro nesta construção. "A massa para unir as pedras era preparada com argila, pó calcáreo e óleo de baleia", explica Lourenço.
A construção do templo levou 200 anos, sempre sofrendo novas adaptações arquitetônicas. No pórtico esquerdo existe a escultura de um crânio, com a legenda "Morten". O zelador jura que, segundo os carmelitas, era ali que se sentenciava de morte os prisioneiros de guerra e os insubordinados. Quando aqui esteve, em 1587, a cúpula da Inquisição autorizou, neste local, a morte de pelo menos seis pessoas, acusadas de heresia.
Os frutos esculpidos no calcáreo, que enfeitam o frontispício, são banana, abacaxi, caju, cacau e uva ou jaboticaba, todas em estilo barroco tropical. O altar-mor da igreja, em estilo rococó, tem 417 anos. Sua estrutura original nunca foi modificada.
O madeirame que segura o telhado é recente, salvo as linhas escuras, retiradas das matas litorâneas, há mais de 400 anos. Naquela época os padres rezavam a missa em latim, de costas para o povo. Depois iam pregar no alto dos púlpitos, nas línguas locais, tupi e português.
A imagem de Nossa Senhora da Guia, que fica na entrada da igreja, é de gesso. A que é centrada no altar-mor é uma peça de finíssima madeira, esculpida por artesãos de Cascata (Portugal), nos meados do Século XVI. Os nichos laterais guardam as imagens dos santos profetas Elias e Eliseu.
A principal escultura do frontispício retrata três estrelas dentro de uma coroa, representando as armas da Coroa Luso-Portuguesa. As três carreiras de telhas que enfeitam os beirais do templo têm um significado especial: são eira, beira e tribeira. Nas igrejas antigas, media-se o nível social de seus freqüentadores pelo número de carreiras de telhas que se sobressaíam nos beirais.
Fonte: http://www.auniao.pb.gov.br
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